domingo, 24 de fevereiro de 2013

Mulheres percebem mais cores que os homens

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     O mundo é mais colorido para as mulheres. Literalmente: um estudo norte-americano sugere que boa parte delas enxerga mais cor do que os homens, devido a uma estranha transformação no gene envolvido na percepção da cor vermelha nas células da retina.
     Ninguém sabe direito como ocorreu essa transformação. Mas o resultado de uma análise feita em 236 indivíduos pelos geneticistas Brian Verrelli e Sarah Tishkoff, da Universidade de Maryland em College Park (EUA), indica que cerca de 40% das mulheres produzem em sua retina um pigmento que absorve luz no espectro do vermelho-alaranjado.
     Mulheres "normais" e homens produzem apenas três pigmentos: os responsáveis pela absorção do azul, do verde e do vermelho. A combinação da luz absorvida por esses três pigmentos, chamados genericamente opsinas, possibilita a visão colorida em humanos.
     Os genes que trazem as receitas para fabricar as opsinas vermelha e verde estão alojados no cromossomo X, que caracteriza o sexo feminino quando ocorre em duplicata (o sexo masculino é definido quando outro cromossomo, o Y, faz par com o X).
     Mulheres normais, portanto, têm duas cópias de ambos os genes. O que a dupla americana descobriu foi que em alguns casos a segunda cópia --ou "alelo", em cientifiquês-- do gene para o pigmento vermelho foi "convertida" durante a evolução da espécie.
     "Devido ao fato de existirem várias mutações que permitem à opsina vermelha absorver cor na faixa do vermelho-laranja, algumas mulheres têm tanto um alelo vermelho "normal" em um cromossomo do par X quanto um alelo "vermelho-laranja" alterado no outro", diz Verrelli, hoje na Universidade do Estado do Arizona. "Essas mulheres podem distinguir melhor as cores na faixa do espectro que vai do vermelho ao laranja", afirmou o pesquisador.
     Em um artigo científico a ser publicado no periódico "American Journal of Human Genetics", (www.ajhg.org), Verrelli e Tishkoff afirmam que o gene da opsina vermelha foi transformado por meio de um mecanismo conhecido como conversão gênica, ainda pouco estudado.
     Ele entra em cena quando um pedaço de DNA é quebrado durante a duplicação do cromossomo e as enzimas encarregadas de repará-lo não conseguem sozinhas encaixar as "letras" A, T, C e G no lugar certo. "Elas podem simplesmente olhar em volta e achar a coisa mais parecida com o original para encaixar na região danificada", disse o americano à Folha, por e-mail.
     No caso do gene estudado pela dupla de Maryland, essa "coisa mais parecida" foram provavelmente pedaços do gene da opsina verde, que mora no mesmo cromossomo. Estudos anteriores mostram que a alteração na seqüência do gene "vermelho" fazem o pigmento absorver luz de uma forma distinta.
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Coletoras     O fato de a variação no gene da opsina vermelha --tecnicamente um "defeito"-- ter sido mantida pela evolução nas populações humanas significa que as mulheres portadoras da versão alterada provavelmente tiravam alguma vantagem dela.
     Essa vantagem, segundo os cientistas, estaria relacionada à coleta de frutos, principal atividade das mulheres na pré-história.
     "Se elas fossem melhores em coletar frutas porque essa percepção de cor era benéfica --elas e seus filhos podiam conseguir frutas mais maduras, por exemplo-- , indivíduos com essa variação na visão em cores seriam os mais bem-sucedidos. Isso poderia explicar por que a caça e a coleta eram atividades humanas tão comuns", disse Verrelli.
     "Claro que somente a visão colorida não faz as mulheres coletarem e os homens caçarem, mas permitiu fazê-lo melhor."
Claudio Angelo

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